Arte e Alma na Construção de Paz: o difícil e instigante caminho de conciliar racionalidade e emoções, enfim, se encontrar

Nota editorial:
Neste texto, o autor nos brinda com uma reflexão fundamental para todos os
acadêmicos, trabalhando com temas sensíveis como a construção da paz, ao
desafiarem os limites intrínsecos do racionalismo metodológico, que separa aqueles
saberes considerados legítimos dos ilegítimos. Este texto é um apelo para,
enquanto acadêmicos, chacoalharmos as amarras cientificistas de nossas
produções e buscarmos novas formas de expressão, como através da Arte.
 
Arte e Alma na Construção de Paz: o difícil e
instigante caminho de conciliar racionalidade e emoções, enfim, se encontrar
* Por Paulo Kuhlmann, UEPB.
 
O trajeto acadêmico é estranho: desde o início, quando se pergunta a uma pessoa sobre o que ela deseja pesquisar, o que mais impulsiona a isto é algum tema que tenha apaixonado, indignado, mexido profundamente. Mulheres buscam estudar diferentes formas de violência e objetificação, bem como formas de afirmação, denúncia e empoderamento, negros fazem o mesmo, buscando entender raízes históricas da subcidadania dos pertencentes à sua identidade, formas de superação, dentre tantas outras pesquisas, por mais racionais e com o foco em conflito e guerras que sejam. Até mesmo quem estuda guerra, alguma atração tem pelo tema, que vai além da racionalidade.
Entretanto, após o início dos trabalhos, iniciamos um processo de castração emocional e, muitas vezes, criativa. A forma de exposição segue um padrão, preferencialmente seguindo alguma metodologia rígida, ainda que qualitativa, os argumentos têm
que ser comprovados cientificamente, embasados em alguém que já escreveu sobre o tema, e por aí vai.
Um livro, que li recentemente e trabalhei com alguns alunos, deixou-os muito confusos e extremamente intrigados: “Imaginação Moral, Arte e Alma na Construção de Paz”, de Paul Lederach. O livro segue uma argumentação, desde o início, que iria trilhar um caminho sobre os processos pelos quais ele aprendeu o trabalho de construção de paz, como ele chegou a aprender com praticantes locais, com suas ideias originais e surpreendentes, e tenta criar algumas formas de entender o que aconteceu com ele, durante esse processo, mas praticamente todas as explicações ele utiliza histórias, reais ou da tradição dos contos de fadas, ou metáforas muito interessantes, que vão, desde o flautista de Hamellin, às teias de aranha e aos seus observadores, bem como os relatos e observações de “pessimistas” locais, utilizando metáforas a respeito de diversas artes, desde a culinária (“fermento crítico”), abrangendo haicais, poemas e pinturas, dentre outros exemplos.
Isto deixou a diversos estudantes em situação de perplexidade: amaram o que leram, ficaram fascinados por ele, mas praticamente não conseguiram se imaginar escrevendo algo do tipo em uma monografia de final de curso de graduação ou dissertação de mestrado.
Por outro lado, participo de um projeto de extensão que busca aliar a construção de paz com a arte, seja ela utilizando a figura do clown (palhaço), peças e jogos teatrais, dança, fantoches, dentre outras formas. Interessante, mais uma vez, é notar que diversas pessoas entendem que não tem nenhum tipo de arte que possam se comunicar, como se fossem desprovidas disso.
Em contraposição à esta ideia de que alguns não tem condições de expressar-se comicamente ou artisticamente, utilizarei nesse texto duas grandes pessoas no mundo da performance artística, Jacques Lecoq e Augusto Boal.
Jacques Lecoq, um dos grandes nomes da mímica total e do teatro físico, criador de uma escola de teatro, desenvolveu uma forma de “tirar o clown do armário”, que ficou conhecida mundialmente, e é praticamente a base dos cursos de clown atuais. A ideia básica é que existe um clown em cada pessoa, que se encontra no seu ridículo, na sua forma desajeitada ou muito radical de encarar as coisas, ou mesmo em seu gestual, que denuncia nervosismo, rigor, impaciência, enfim, muitas das qualidades que desejamos profundamente esconder no dia a dia das convenções sociais e das rotinas que nos cobram formas de polidez e do bom proceder.
No filme de Fellini “Os Palhaços”, ele inicia denunciando o palhaço como uma figura que causa medo e atração, ao mesmo tempo. Ele, menino, supera o medo, para ver aquelas estranhas figuras, debaixo das lonas do circo. Ao mesmo tempo, corroborando com Lecoq, Fellini apresenta figuras estranhas do dia a dia que demonstram os “clowns escondidos”, ou na verdade explícitos, do dia a dia. Lembro-me bem de uma freira anã, que rezava e falava sozinha, e de um homem louco que ficava fazendo gestos obscenos a todos, intimidando a todos.
Portanto, há clowns em toda a parte, inclusive dentro de nós; basta termos capacidade de olhar, enxergando tudo isto, a beleza do erro, do ridículo, da vida. E conseguir extrair do feio, o belo, ou o autêntico, o cru, numa sociedade de polimentos artificiais e sabores tanto quanto.
Da mesma forma, Augusto Boal aponta a condição de que todos, enfim, até os oprimidos, têm uma estética, e se faz necessário coloca-la, como forma de exteriorização de identidades, como um ato emancipatório, e para isto é necessário que nos esforcemos para encontrar quais as formas estéticas nos são importantes, legítimas e que tem a ver com nossa alma e identidade.
Entretanto, para isto, faz-se necessário uma busca nos “porões” do nosso ser, retirando de lá as coisas que guardamos quando éramos ainda crianças, porque se tornaram desajustadas, inconvenientes, no fazer adulto. Essa busca tem muito a ver com o que Michel Foucault indica como cuidado de si, um caminho de ascese escolhida, e não imposta por qualquer poder microfísico disciplinatório externo. A disciplina parte de nós, para encontrarmos a nossa forma de expressão identitária, mas isso não significa que virá sem dor, como boa parte dos partos. Parir é primeiro conceber, depois gestar, depois expelir. Precisamos passar por todo esse processo, que não é tão curto e a duração de cada estágio é diferente, dependendo dos processos individuais. 
Assim é na construção de paz e na arte: os atos emancipatórios, se não tomarmos cuidados, se tornam dogmáticos e doutrinários, o que pode ser visto em diversas tradições religiosas, ou filosofias messiânicas, ainda que dispensem qualquer tipo de religiosidade. Emancipar-nos, emancipar os outros, enfim, é uma tarefa árdua. Intuição, esforço ascético, disciplina e rigor individual, não alienado, gerarão tudo isto. E que corra o rio da vida!!!

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