Nota sobre o dossiê 28 da Revista Organicom, “Comunicação, Estudos para a Paz e Violência Organizacional”

Por Maria Ap. Ferrari*

 e Raquel Cabral**

Capa_Organicom

A comunicação para a paz (communication for peace) tem sido um tema singular no contexto dos Estudos para a Paz. Ao refletirmos sobre violência cultural entendemos que a comunicação é um elemento fundamental no processo de transmissão e legitimação dos discursos sociais que naturalizam determinados valores, princípios e ideias que, por sua vez, vão justificar a violência direta e estrutural.

Por outra parte, ao pensarmos os meios de comunicação alternativos, podemos observar que, do mesmo modo que é possível transmitir ideais de violência, também podemos nos valer das estratégias comunicacionais para divulgar, difundir e ampliar o alcance dos princípios que consolidam uma cultura de paz.

Obviamente, o contexto epistemológico da comunicação não é nada simplista. Há inúmeros fatores e variáveis complexas que podem influenciar os meios, os veículos e as mensagens que são transmitidas e que podem impactar diretamente a vida em sociedade.

Uma dessas variáveis pode ser identificada no contexto da comunicação organizacional, ou seja, na comunicação que as organizações (sejam elas do setor público, privado ou do terceiro setor) produzem para seu público interno (empregados), com seus públicos de interesse (clientes, fornecedores, terceirizados, imprensa, governos) e com a sociedade de forma ampla. Nesse sentido, e considerando que determinadas estruturas organizacionais regem as nossas vidas e atividades cotidianas, podemos afirmar, tal como Etzioni (1980) apud Kunsch (2003), que todos nós nascemos e morremos em organizações e somos fortemente influenciados por suas culturas organizacionais.  “Nascemos em organizações e quase todos nós somos educados por organizações, e quase todos nós passamos a vida a trabalhar para organizações. Passamos muitas de nossas horas de lazer a pagar, a jogar e a rezar em organizações” (ETZIONI, 1980, p. 7 apud KUNSCH, 2003, p. 19).

Partindo dessa constatação, a noção de cultura organizacional adquire grande relevância, ao reconhecermos que ela é fortemente estruturada pela identidade organizacional e pelos discursos que as organizações tecem a respeito de seus princípios, valores, políticas e filosofia que, finalmente, vai ser conformada num amplo sistema comunicacional.

Pensando a respeito disso e em como, na atualidade, esses sistemas comunicacionais e organizacionais legitimam e justificam determinadas expressões de violência direta, estrutural e cultural sob a chancela do que Stanley Deetz (1992) vai chamar de colonização corporativa, propusemos um dossiê temático na Revista Organicom para trazer esse debate à tona. Ao mesmo tempo, entendendo que há uma relação estreita entre os estudos de Comunicação, a Comunicação Organizacional mais especificamente, e os Estudos para a Paz, propusemos uma chamada de artigos científicos a fim de mapear possíveis estudos na área da comunicação para a paz no Brasil que pudessem apresentar diretrizes para os pesquisadores interessados.

Contudo, para tal tarefa, sabíamos que era fundamental, primeiramente, que partíssemos de um referencial comum a fim de sistematizar algumas ideias que sustentam a concepção de comunicação para a paz. Por essa razão, fomos buscar textos que pudessem se apresentar como referenciais teóricos basilares para apresentar a área de estudos em território brasileiro e latino-americano.

Assim, iniciamos o dossiê 28 com a entrevista “Diálogos entre o Norte e Sul Global” entre os pesquisadores Eloísa Nos Aldás, pesquisadora em comunicação para a paz da Universitat Jaume I (Espanha), e o pesquisador Maximiliano Martin Vicente, pesquisador em comunicação para o desenvolvimento e as epistemologias do Sul da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Brasil. A partir do seu lugar de fala (Norte e Sul global), estes pesquisadores nos ofereceram seus olhares sobre a comunicação em diálogo com os estudos para a paz, levantando questionamentos, referenciais teóricos e reflexões numa perspectiva crítica e dialógica a fim de dar visibilidade ao lugar estratégico que a comunicação ocupa no debate em torno da legitimação de discursos sociais.

Em seguida, selecionamos alguns artigos já publicados de autores convidados. Primeiramente, inserimos a valiosa contribuição de Johan Galtung, revisitando seu texto “Violence, Peace and Peace Research publicado pela primeira vez em 1969 no Journal of Peace Research, no qual o autor discute conceitos essenciais da estratégia científica dos Estudos para a Paz. Na seqüência, também revisitamos textos dos autores Hakan Wiberg (in memorian), José Manuel Pureza e Wolfgang Dietrich que nos oferecem uma perspectiva crítica sobre a epistemologia dos Estudos para a Paz.

No intuito de estabelecer uma aproximação entre a comunicação e o debate em torno de temáticas que são objeto de estudo no contexto da Comunicação Organizacional, tais como: equidade de gênero, diversidade, grupos minorizados, meio ambiente, migrações, governança corporativa e ética empresarial, os autores convidados Irene Comins Mingol, Josefina Echevarría, Érika Rojas Ospina, Alberto Gomes, Eduardo Forero e Sandra Fuentes, de diversas partes do mundo, nos oferecem uma perspectiva crítica a partir de seus objetos de pesquisa que nos permitem estabelecer diálogos e aproximações com a comunicação organizacional. Além da destacada contribuição de Xavier Giró, da Universitat Autònoma de Barcelona, especialista em Jornalismo para a Paz, que nos apresenta um olhar sensível e crítico sobre a cobertura jornalística em contextos de conflitos nacionalistas.

Já com relação aos textos dos artigos submetidos ao dossiê e que passaram por avaliação de pareceristas, os autores Alexandre de Sousa Carvalho, Sofia José Santos, Mariana Prioli Cordeiro, Felipe Tavares Paes Lopes, André Medeiros, Célia Retz, Gisela Gonçalves, Jorge Salhani e Raquel Cabral estabelecem uma relação intrínseca entre comunicação, violência e organizações ao apresentarem reflexões teóricas a estudos empíricos embasados pelos referenciais dos Estudos para a Paz e outros campos do conhecimento.

Além de textos gerais relacionados com a comunicação organizacional e relações públicas, esta edição também oferece resenhas de duas obras: Handbook of Peace and Conflict Studies de Charles Webel e Johan Galtung, publicado pelo Routledge em 2007, produzida por Heloísa Santos, e Apologia da Polêmica de Ruth Amossy, publicada pela Editora Contexto em 2017, produzida por Érika de Moraes.

Esperamos que o número 28 da Revista Organicom seja um divisor de águas, contribuindo principalmente para inspirar os comunicadores e acadêmicos das áreas de Comunicação Organizacional e Relações Públicas a desbravarem o campo dos Estudos para a Paz e da violência organizacional.

Nosso esforço ao presentear os leitores com textos de referência mundial na área de Estudos para a Paz tem como objetivo a construção e consolidação de referenciais teóricos críticos e experiências práticas voltadas para a cultura de paz a partir da nossa realidade brasileira, latino-americana e dos povos do Sul global.

Tal como previsto no Pacto Global das Nações Unidas, publicado no ano de 2000, as organizações são convocadas a serem legítimas parceiras na implantação de políticas e ações efetivas que busquem identificar, denunciar e eliminar a violência de nossas sociedades. Para tanto, o olhar para o ambiente organizacional é fundamental, uma vez que as organizações podem  refletir e intensificar, no microambiente organizacional, manifestações de violência da sociedade. Com isso, é urgente que as organizações públicas, privadas e do terceiro setor conheçam essa perspectiva e trabalhem para a mudança da cultura de violência.

* Professora do Programa de Pós-graduação em Ciências da Comunicação da Universidade de São Paulo (USP). Doutora em Ciências da Comunicação pela USP. Livre-docência pela USP. Contato: maferrar@usp.br

** Professora do Programa de Pós-graduação em Comunicação da Faculdade de Arquitetura Artes e Comunicação (FAAC) da Unesp. Doutora em Comunicação pela Universitat Jaume I, Espanha. Pós-doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP). Contato: raquel.cabral@unesp.br

 

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