Comunicação para a Paz e Cinema Intercultural: a Ruptura da Violência Cultural

Por

André Aparecido Medeiros*

e Raquel Cabral**

A presença da violência

A violência é tradicionalmente associada à sua versão direta – conforme classificação de Galtung (2005) –, manifestada por ameaças ou pela materialização de ações violentas, com o uso da força do corpo, de armas, de gestos e palavras ou de outra forma de maltrato. Porém, muitas vezes, a violência se manifesta em sua versão estrutural ou sistêmica, produzindo injustiça e sofrimento: as vítimas são pessoas suscetíveis às consequências da desigualdade de raça/etnia, gênero, classe social e aos prejuízos de outras relações que coloquem em xeque a igualdade de oportunidade de acesso a bens, a serviços e a direitos.

Um terceiro tipo de violência é a violência cultural, também apresentada por Galtung (2005). Compreende a presença da violência em esferas culturais ou ideológicas de modo a dificultar a identificação de vítimas e de agressores, já que ela se materializa nos discursos sociais. Dada a dificuldade de sua identificação, os comunicadores devem redobrar a atenção para as práticas discursivas. Ela nem sempre é percebida e seus efeitos são, muitas vezes, minimizados, pois tal violência adquire, socialmente, visões de naturalidade, sendo concebida como parte integradora da cultura. Ao produzir ou veicular um conteúdo, devemos nos atentar para as abordagens e refletir sobre a mensagem que está sendo comunicada.

O discurso da exclusão é difundido por meio de um mecanismo que tende a privilegiar vozes autóctones, colonizadoras, de classes privilegiadas, os “detentores de voz”, trazendo para um segundo plano os demais discursos. Dentre esses segmentos negligenciados, estão determinados grupos étnicos, imigrantes, comunidades rurais e tradicionais, e outras comunidades, por vezes, culturalmente apartadas, vítimas de preconceitos, estereótipos e de outras manifestações de violência.

Partindo da amplitude do conceito de violência, especialmente, da violência cultural, podemos discorrer amplamente sobre a presença de discursos violentos, assim como de discursos de paz, na mídia. Na comunicação para a paz se discutem as idiossincrasias da comunicação que atuam, mesmo que simbolicamente, na legitimação da cultura de paz ou violência. Entra em pauta o papel do cinema na propagação de determinados ideais, narrativas e sensibilidades.

Neste texto, pretendemos apresentar uma breve discussão sobre a comunicação para a paz, precisamente a partir do cinema intercultural, que busca visibilizar determinados discursos de violência e exclusão contra certos grupos étnico-raciais para potencializar narrativas de diálogo entre culturas e diversidade.

A abordagem intercultural no cinema

A mídia, incluindo o cinema, frequentemente, aborda as vítimas das desigualdades, ao redor do globo. As discussões são feitas de diferentes maneiras. Contudo, como a comunicação também manifesta relações sociais de poder, a abordagem predominante é proveniente de camadas sociais hegemônicas, nem sempre preocupadas com uma sensibilização para a causa intercultural.

Nesse cenário, narrativas interculturais passam a ser formuladas, e se destacam como uma via para criar “formas de visibilidade e de sensibilidade para um estado de mundo difuso, que comporta lado a lado sujeição e formas de enfrentamento, exploração e liberdade” (FRANÇA, 2003, p. 14). Tal processo envolvendo a narração cinematográfica fez com que um diferente tipo de cinema se manifestasse.

O cinema intercultural começa a emergir, especialmente, ao final da década de 1980. Certos títulos de décadas anteriores já prenunciavam ou apresentavam o modelo, retratando diálogos interculturais de modo sensível – como o caso do franco-mauritano Soleil Ô (Med Hondo, 1967) – contudo, no final dos anos 1980, é possível identificar, com maior precisão, o crescimento de um movimento (ou de uma tendência) existente em certos círculos, privilegiando uma narrativa voltada à causa intercultural. Chocolat (Claire Denis, 1988) – uma produção envolvendo França, Alemanha Ocidental e Camarões – é um exemplo do período. Na década de 1990, a presença do cinema intercultural se faz mais contundente, coincidindo com a retomada do cinema brasileiro. O luso-brasileiro Terra Estrangeira (Walter Salles, Daniela Thomas, 1995) se torna um marco significativo do início do cinema intercultural no Brasil.

“Na estética que dá forma a este cinema”, discutindo o âmbito intercultural ibero-americano, Teixeira e Fischer (2016, p.34) mencionam que “o fora de lugar e o nomadismo são potencializados, sintomática e poeticamente, na bizarra coreografia resultante de jogos imagéticos que alternam o estático e o dinâmico”. Consideram um cinema difícil de ser avaliado segundo os antigos moldes: “Cinema descentrado, perturbador, animado pela presença inquietante de personagens em reiterado deslocamento físico deslizando por entre cenas em que o movimento estabelece, paradoxalmente, estreita parceria com a dificuldade de fluxo” (2016, p.35).

“Cinema multicultural, mestizo, pós-colonial, transnacional, híbrido, minoritário… muitas denominações para um gênero que se torna cada vez mais importante” (MOURA, 2010, p.45, grifo do autor). Está presente em todo o mundo, estando destacadas características circunstanciais. Moura explica (2010, p.46, grifo dele) que “esses cinemas emergentes se originam do olhar de novos cineastas provindos de uma nova realidade, criada principalmente nos países que acolheram os imigrantes de ex-colônias, como a França e a Inglaterra”. Também se originam de novos imigrantes, a partir de países como: Canadá, EUA e Brasil.

No âmbito global, dentre os cineastas mobilizados ante às amplas abordagens de práticas sociais, envolvendo deslocamentos e interculturalidade, além de Med Hondo, Claire Denis, Walter Salles e Daniela Thomas, podem ser citados: Wong Kar-Wai, Sofia Coppola, Hany Abu-Assad, Roger Gnoan M’Bala, Moussa Touré, Helena Taberna, Pedro Pérez Rosado, Gerardo Olivares.

Nota-se que o cinema na América Latina dialoga com esse impulso transnacional. Discutindo o cinema latino-americano da última virada de século, Brandão (2012) destaca a vertente intercultural, em sua busca por acompanhar o cenário de mobilidade atual, ensejando um estado permanente de passagem e trânsito. Segundo a autora, as passagens acolhem inquietações, dispersões e negociações, borrando horizontes e fronteiras.

Brandão (2012) categoriza alguns títulos, realçando temas trabalhados. A saber: viagens internacionais impulsionadas por um desejo revisionista, em El viaje (Fernando Solanas, 1992), Amigomío (Alcides Chiesa e Jeanine Meerapfel, 1994), Terra estrangeira (Walter Salles e Daniela Thomas, 1996); uma vertente revisionista de retorno ao sertão brasileiro, com destaque para Baile perfumado (Lírio Ferreira e Paulo Caldas, 1997) e Central do Brasil (Walter Salles, 1998); novas discussões sobre movimentos e relações pessoais, em En la puta vida (Beatriz Flores Silva, 2001), Dois perdidos numa noite suja (José Jofilly, 2003); negociações com o gênero road movie, como em Y tu mamá también (Alfonso Cuarón, 2001), Histórias mínimas (Carlos Sorín, 2002), El viaje hacia el mar (Guillermo Casanova, 2003), Família rodante (Pablo Trapero, 2004), Cinema, aspirinas e urubus (Marcelo Gomes, 2005), Árido movie (Lírio Ferreira, 2005); o comando de mulheres diante do deslocamento, em Sin dejar huella (María Novaro, 2000), Um passaporte húngaro (Sandra Kogut, 2001), Tan de repente (Diego Lerman, 2002), Cleopatra (Eduardo Minogna, 2003), Solo Dios sabe (Carlos Bolado, 2006), Babel (Alejandro Gonzáles Iñárritu), O céu de Suely (Karim Aïnouz, 2006) e Una novia errante (Ana Katz, 2007).

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[Na imagem, cena de Central do Brasil, de Walter Salles]

O conteúdo do cinema intercultural se volta, por exemplo, para a língua, a classe social e a inserção social do trabalhador, de modo que o cinema se torna, além de um meio privilegiado de comunicação e experimentação, uma mídia portadora de significação para a comunidade retratada (MOURA, 2010, p. 46). Quanto aos cineastas, junto aos indivíduos retratados, “É sobretudo através de um olhar integrador, de transferência, de adaptação e de aceitação do “Outro” (sua cultura, sua língua) que eles mostram que fazem parte da sociedade e que eles devem reivindicar seus lugares” (MOURA, 2010, p. 46, grifo do autor).

França (2003) destaca o modo como esses filmes operam com o presente, em aproximação ou em distanciamento com temáticas abordadas nas redes mundiais, incluindo: guerra, imigração, direitos humanos, discriminação, xenofobia, desigualdades, modos de vida, modos de pensar, novas modalidades de trabalho, sociabilidade e sujeição. Há uma outra subjetividade estética e política, um novo capital humano como sujeito do discurso cinematográfico.” A autora (2003, p. 16) menciona que, mesmo sem necessariamente apontar respostas, esses filmes mobilizam interrogações: “que espécie de mundo é esse? Como foi que se conseguiu extirpar, de forma tão radical e violenta, qualquer princípio ético de fraternidade e compaixão num mundo que até há pouco se orgulhava de ser herdeiro das tradições iluministas e humanistas?”.

Ao oferecer “visibilidades mais complexas, densas e paradoxais” a grupos “estereotipados e/ou marginalizados pelos meios de comunicação”, o cinema intercultural, conforme França (2003, p. 19), possui ampla extensão política. De acordo com Moura (2010, p. 47), ele é “colocado numa relação de força na sua forma contestatória em relação a uma estética dominante”.

Reconhecendo o favorecimento às características de empatia e democratização nas narrativas interculturais, Medeiros e Santos (2008, p. 244) observam “que o espaço para vozes de diferentes culturas no cinema, em relação intercultural, tende a promover o convívio pacífico entre povos, pois a mídia representa um território político que repercute na sociedade”.

Comunicando para a paz

Decididamente, deve ser uma preocupação da mídia, de modo geral, a atenção às maneiras de representação de identidades, em busca de uma sonhada cidadania global. A temática migratória, por exemplo, exige um questionamento profundo sobre os conceitos de nacionalidade, soberania, fronteira e Estado-nação. Assim, é fundamental que a mídia adote princípios comunicacionais éticos, de modo a produzir narrativas discursivas, que possam contextualizar, explicar, problematizar e sensibilizar sobre questões interculturais.

As estratégias da comunicação para a paz e a interculturalidade possuem enorme potencial inclusivo, por respeitar e envolver a adequada participação ou representação de diferentes grupos, por vezes estigmatizados em outras abordagens. Estando vinculado aos fundamentos da comunicação para a paz (e não apenas do Peace Journalism, por exemplo), o cinema intercultural possibilita a sensibilização do olhar, além de apresentar ao espectador variadas formas de viver e conviver.

A violência tende a perder força conforme é enfrentada culturalmente, como quando um filme rompe com a imagem estereotipada de uma determinada comunidade, pauta sua abordagem a partir do respeito e comunica formas de convivência pacífica. Como abordagem cidadã, um filme pode, nesse processo, difundir culturas diversas, promover a interação entre povos e contribuir para transformações sociais.

 

*Mestre em Comunicação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp); Bacharel em Cinema e Vídeo pela Universidade Estadual do Paraná (Unespar). E-mail: andreapmed@hotmail.com

**Doutora em Comunicação e Mestre em Estudos Internacionais em Paz, Conflitos e Desenvolvimento pela Universitat Jaume I, España; Pós-doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP); docente dos cursos de graduação e pós-graduação em Comunicação da Universidade Estadual Paulista (Unesp). E-mail: raquel.cabral@unesp.br

 

REFERÊNCIAS

BRANDÃO, Alessandra Soares. Viagens, passagens, errâncias: notas sobre certo cinema latino-americano na virada do século XXI. Rebeca, v.1, n.1, p.72-98, jan./jun., 2012. Disponível em:<https://rebeca.socine.org.br/1/article/view/267&gt;. Acesso em: 8 jan. 2019.

FRANÇA, Andréa. Terras e fronteiras no cinema político contemporâneo. Rio de Janeiro: 7Letras, 2003.

GALTUNG, Johan. Três formas de violência, três formas de paz. A paz, a guerra e a formação social indo-europeia. Revista Crítica de Ciências Sociais, Coimbra, v. 71, p. 63-75, 2005. Disponível em: <https://bit.ly/2I9KSya&gt;. Acesso em: 15 dez. 2017.

MEDEIROS, André Aparecido; SANTOS, Célia Maria Retz Godoy dos. A atuação do cinema intercultural em meio aos imaginários de naturalização da violência contra imigrantes. Organicom, v.15, n.28, p. 236-246, 2018. Disponível em: <https://is.gd/A1wxgz&gt;. Acesso em: 18 dez. 2018.

MOURA, Hudson. O cinema intercultural na era da globalização. In: FRANÇA, Andréa; LOPES, Denilson (Org.). Cinema, globalização e interculturalidade. Chapecó: Argos, 2010. p. 43-66.

TEIXEIRA, Rafael Tassi; FISCHER, Sandra. Cinema Intercultural Ibero-Americano: estesias diaspóricas, nomadismos identitários, fronteiras em trânsito. In: CARDOSO, João Batista Freitas; SANTOS, Roberto Elísio dos (Org.). Miradas sobre o cinema ibero-americano contemporâneo. São Caetano do Sul: USCS, 2016. p.15-36.

 

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