Democracia, reconciliação e política após o fim da guerra civil salvadorenha*

Por Vanessa Matijascic

Pesquisadora de pós-doutorado e professora colaboradora no Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo/USP e doutora em História pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho/UNESP. É autora de El Salvador: da Guerra à Paz.

“Guardiões do Futuro: Os coordenadores de El Salvador”, dirigido por Avi Lewis e produzido por Klein Lewis, é um documentário fascinante do ano de 2018, que apresenta como os salvadorenhos superaram o contexto de conflito violento após doze anos de guerra civil (1980-1992).

Em 1992, as negociações de paz foram conduzidas em El Salvador por um pequeno grupo da Organização das Nações Unidas (ONU) e as partes envolvidas no conflito: líderes das guerrilhas (a chamada Frente Farabundo Martí para a Liberación Nacional, FMLN) e Alfredo Cristiani, presidente de El Salvador, representando o Estado. Em outros momentos, mais representantes foram enviados para o diálogo mediado pela ONU, como membros do alto comando das Forças Armadas salvadorenha, dois ministros do governo salvadorenho e mais líderes da FMLN. O diálogo que culminou no acordo de paz final foi facilitado pelo secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), pelo enviado especial da ONU, Álvaro de Soto, e pelo chefe do departamento de operações de paz da ONU da época, Marrack Goulding. No entanto, representantes da sociedade civil, incluindo partidos políticos na forma da Comissão Interpartidária, e da Igreja Católica, reuniram-se na Assembleia Nacional de Salvador para debates que serviram como foros de consulta às negociações de paz (Matijascic 2019).

Explicar o fim da guerra civil e falar sobre o processo de paz de El Salvador é, principalmente, um exercício de olhar paciente para os atores políticos da época, encontrando e explicando cada passo que buscaram dar em direção à paz. Muitos manuscritos foram feitos sobre esse processo político (ver Montgomery e Wade 2006; Torres-Rivas 1997), mas o mais valioso do documentário é a importância dada ao povo salvadorenho.

Superar essa situação difícil e encontrar outro caminho para a vida por meio da reconciliação é o tema  do documentário Guardiões do Futuro.  Desta forma, recorrente são as cenas de reuniões entre camponeses, o tempo livre desfrutado em pequenos grupos na escola, vida e trabalho nas zonas rurais são alguns exemplos que despertam o interesse do espectador para o que é genuíno na vida dos salvadorenhos.

O documentário traz imagens da vida de uma comunidade na região de Bajo Lempa, composta por refugiados da guerra civil. A comunidade decidiu se organizar para tentar recuperar a terra, torná-la produtiva e garantir um futuro melhor para a comunidade. Os camponeses não são mostrados apenas debatendo desafios diários, mas também planejando seu futuro para o desenvolvimento econômico, em parceria com o setor privado. Essas ações destacam a democracia participativa e uma visão crítica da interferência humana na natureza, como valores centrais para a comunidade, dando-lhe coesão. Como mostra o documentário, o cultivo da terra e a piscicultura sustentável são as principais atividades econômicas desses camponeses salvadorenhos, o que os aproxima das preocupações contemporâneas com as mudanças climáticas e com o meio ambiente. Da mesma forma, o poder da comunidade local e seu diálogo democrático são importantes e presentes no filme. Uma das líderes, por exemplo, fala sobre democracia e sua importância, enquanto atrás dela há um pequeno grupo de jovens carregando bandeiras da FMLN.  Neste momento, o FMLN é um partido político e não há referência ideológica à revolução ou à insurgência dos anos 1980. Isso pode ser surpreendente para aqueles que estão cientes dos acontecimentos durante a guerra civil e encontrarão outro recorte temporal desprovido do mesmo significado.

É interessante que a devastação ambiental nem sequer é mencionada pelo roteirista em relação às experiências passadas de El Salvador na guerra civil, mas apenas como uma circunstância a partir da qual conseguiram começar novamente e progredir. Dessa forma, Guardiões do Futuro lança luz sobre a vida real das pessoas que querem se desenvolver da maneira que podem. Aqui, mesmo os Estados Unidos são encarados com empatia pelos líderes locais. Em uma reunião, eles expressam satisfação com o apoio das empresas norte-americanas para o desenvolvimento da região e demonstram preocupação apenas com o risco de devastação da Baía de Jiquilisto. Isso revela o poder das pessoas em equilibrar as atividades econômicas com a natureza, que, no entanto, parece algo ingênuo frente aos desafios impostos pelas relações assimétricas entre o setor privado e as comunidades locais.

A intenção deste documentário, além de mostrar um profundo processo democrático da base às lideranças, é passar uma mensagem de reconciliação. A última cena expressou esse tom, ao mostrar simultaneamente líderes camponeses salvadorenhos e cidadãos americanos que sobreviveram ao furacão Katrina que devastou parte do país há mais de dez anos. Parece que nenhuma reclamação sobre as decisões políticas dos Estados Unidos na década de 1980 permaneceu entre os líderes salvadorenhos. Além disso, nas entrelinhas está uma mensagem de que o sofrimento humano pode atingir a todos no mundo, e este é indiferente à raça, gênero ou país. É uma questão de tempo e circunstâncias. Se, no passado, os salvadorenhos atravessaram a sombra da guerra civil, a última cena mostra um salvadorenho que visitou Nova Orleans tomando nota de como as autoridades dos Estados Unidos haviam deixando as pessoas sem ajuda depois do desastre natural.

Resumindo, não assista “Guardiões do Futuro: os Coordenadores de El Salvador” se você está buscando indícios do comportamento revolucionário ou crítico salvadorenho; não há orientação de esquerda. Porém, se você quiser entender como as pessoas dessa comunidade querem viver e prosseguir com suas vidas após a guerra civil, certamente essa perspectiva irá atrair você.

Referências

Matijascic V.B. (2019)  El Salvador: da guerra civil à paz. Curitiba: Appris.

Montgomery,T. S.;  Wade, C. (2006). A revolução salvadorenha. São Paulo: Editora Unesp.

Torres Rivas, E. (1997). “Insurreição e civil em El Salvador”.  In:  Doyle, M.W.; Johnstone, I.; Orr, R.C. (eds.)  Manter a paz:  operações multidimensionais da ONU no Camboja e El Salvador. Cambridge: Cambridge University Press, pp.209-226.

*Resenha originalmente publicada no site E- International relations em 30 de outubro de 2019. Disponível em: https://www.e-ir.info/2019/10/30/review-keepers-of-the-future-la-coordinadora-of-el-salvador/

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